Lídia Bantim

"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever." Clarice Lispector

Textos


A SEGUNDA VIDA DE JACKSON

 


 

 

     Sou descendente de uma família nobre, raça Poodle. Aliás, um dia me disseram que eu era de raça e eu, bobo, acreditei. Vivi numa mentira, até o dia em que passei a ouvir as conversas dos meus donos e descobri toda a verdade sobre minha origem. Que vergonha! Que decepção!
Minha mãe era uma cadela Poodle sem pudor e, por isso, não obedeceu à Dona Clarice, dando-lhe um desgosto daqueles!
     Certa manhã, enquanto passeava na pracinha para fazer seus exercícios matinais, soltou-se da coleira e correu como se fosse uma cadela qualquer atrás de um vira-lata invejoso que vivia assediando aquelas cadelinhas de madame, só para se vingar delas e manchar-lhes o pedigree. A partir desse dia, ela ficou conhecida como a Periguete do bairro. Engravidou e teve três filhotes: dois machos e uma fêmea. D. Clarice, aquela megera, ficou revoltada. Contava os dias para o nosso desmame e desabafava com a vizinha:
     — Ah! Noêmia, não vejo a hora de me livrar dos monstrinhos que a Nina pariu!
     — Que você vai fazer, amiga? Os bichinhos não têm culpa, coitadinhos!
     — E eu, muito menos! Não quero, nem vou ser motivo de piadinhas aqui no condomínio. Já pensou o que a Glória Vargas do 607 vai falar?
     Eu era muito pequeno, mas me lembro do dia em que D. Clarice nos entregou num Pet Shop que ficava afastado do bairro de luxo onde morávamos. Não nos vendeu. O desprezo era tanto que, para se ver livre de nós, ela pagou caro ao dono da loja, para que ele "desse um jeito de desaparecer com essas pragas". Depois de assinar o cheque, saiu sem olhar para trás, abandonando-nos naquele lugar sujo, longe de nossa mãezinha, passando fome, sede e frio.
     Dos três irmãos eu era o mais estranho: não me parecia nem com um poodle, nem com um vira-lata. Eu era esquisito mesmo! Várias vezes, ouvia os risos e os comentários dos clientes:
     — Nossa! Que animalzinho bizarro! Nunca vi poodle, nessa idade, ainda com rabo! Parece mais um E.T, coitado!
     Eu sentia uma dor profunda, ouvindo isso tudo. Aos poucos, meus irmãos foram vendidos e fiquei ali sozinho, numa gaiola apertada, afastado dos outros animais, como se minha feiura fosse contaminá-los.
     Até que um dia, antes de a loja fechar, um homem muito bem vestido e educado chegou acompanhado da filha. Ela era muito bonitinha, parecia uma boneca! Assim que lançou o brilho daquele olhar sobre o meu abandono, senti a gaiola agigantar-se e o céu despejar todos as estrelas ali dentro! O pai olhava apenas os cães enormes, mas a menina ficou encantada quando me viu:
     — Eu quero este cachorrinho, pai! Olha como ele é fofo! Parece que está tão tristinho...
     — Paty, sua mãe não vai aceitar. Ela detesta cachorro. Ainda mais um bichinho feio desses, filha!!!
     — Por favor, pai! Eu quero este! Compra! Compra! Compra!!!
Com aquele jeitinho doce Paty conseguiu convencer o pai e eles me livraram daquela prisão.
Quando entraram em casa Paty estava comigo nos braços, radiante de felicidade! Mas a mãe dela, a antipática D. Joelma, não foi com as minhas fuças:
     — Escute aqui, Artur, já que você faz todas as vontades de sua filhinha, assuma com ela os cuidados com esse bicho horroroso! Eu não quero saber de sujeira!
     Naquele mesmo dia, ganhei uma casinha linda no quintal, uma cama macia, coberta, almofada e brinquedos. Até um colete vermelho, uma gravata borboleta azul marinho e tênis combinando com a gravata ela colocou em mim. A comida era tão boa que eu sentia medo de passar mal de tanto comer...
     Paty me batizou com o nome de Jackson levou-me ao veterinário que me receitou vitaminas, vermífugo shampoo, sabonete e condicionador especiais. Uma vez por semana, um motorista num carro branco, todo decorado, vinha me buscar para o banho e o cuidado com os meus pelos que já estavam causando inveja à cachorrada da rua.
     Entretanto, a minha felicidade durou muito pouco. Naquela sexta-feira, antes de ir para a escola, Paty se esqueceu de limpar a sujeira que eu tinha deixado no quintal.
     Quando D. Joelma viu aquele estrago, começou a me bater fortemente com a vassoura. Depois, me levou para uma rua muito distante dali e me entregou à própria sorte.
     Chorei muito, tentando encontrar o caminho de volta, mas como? Eu só andava de carro com a minha dona e, cego de confiança, jamais me preocupei com o percurso que ela fazia. Eu adorava passear e nem queria saber aonde íamos.... Corri sem rumo, durante dias e noites, rodando feito barata tonta, entrando na mesma rua e saindo várias vezes.
     Quando já não suportava mais o cansaço e a fome, tentei encontrar comida nos sacos de lixo e nas lixeiras, mas era escorraçado a mordidas pelos cães que dominavam aquele ponto. Fiquei todo machucado e sangrando. Então, eu parei à porta de uma casa enorme. — Quem sabe alguma criança goste de mim? — Pensei.
     Fui enxotado com água quente, vassouradas, pedradas e maldições. Acuado, continuei apanhando dos outros cães. Já não havia mais espaço em meu corpo para novos ferimentos. As moscas me infestaram de bicheiras e meu pelo branquinho era agora um tapete sujo de lama, sangue e terra.
     Uma tarde, já sem forças, quase desmaiando de fome, sede e ardendo em febre, parei próximo a um campo de futebol, onde vários rapazes jogavam. Apesar do medo, resolvi deixar que eles me vissem. Talvez, alguém sentisse piedade de mim e me desse um pouco de comida e de água.... Deitei-me sobre a calçada quente, com os pulmões quase saindo pela boca, e a cabeça explodindo de dor!
     Quando o jogo terminou, todos os rapazes se dirigiram eufóricos ao bar que ficava na calçada oposta. Todos, menos um, que parou para amarrar o cadarço da chuteira esquerda! Assim que ele me viu, esqueceu a chuteira e veio ao meu encontro. Ao perceber a dificuldade com que eu respirava, ficou com os olhos cheios de lágrima, pôs-me no colo, levou-me para casa, deu-me um caldo na seringa e água geladinha. Depois, tentou conversar comigo, a fim de saber detalhes do meu passado, como se nós dois falássemos a mesma língua! Queria saber o meu nome e até arriscou alguns que achei bem engraçados: Baltazar? Rex? Bob? Bethoveen? Duque?
A cada pergunta, eu murchava as orelhas negativamente, mas ele não conseguia decodificar minha mensagem e desistiu, apresentando-se, por fim:
     — Não tenha medo, amigão! Meu nome é Miguel e você está protegido!
Embora eu estivesse sujo e cheirando mal, ele me abraçou com tanto carinho, que não contive a emoção e chorei! A seguir, me deu banho e telefonou para Francisco e Clara, os veterinários que cuidaram de mim até eu ficar curado. Apesar do amor que sentiam por mim, estavam decididos a me entregar à SUIPA, tão logo eu melhorasse. Mas, graças à Amanda, namorada de Miguel que, modéstia à parte, caiu de amores por mim, aconteceu o inesperado:
     — Ah, amor! Vamos ficar com ele, tadinho! Assim, o Tico terá um irmãozinho, vamos?! Amanda Tratou logo de me dar o nome de Teco, vê se pode!
Assim, com aquele jeitinho meigo que as mulheres têm de conseguir o que querem, convenceu o namorado a me deixar com eles e eu me derreti todo em agradecidas carícias!
     — Está bem, mas não há como mantermos dois cães no apartamento. Além do mais, o Tico é muito ciumento. É melhor deixarmos o Teco aqui, na casa dos meus pais, e nós continuarmos cuidando dele, nos fins de semana.
Eu, que já estava adaptado aos costumes e à linguagem deles, pensei suburbanamente:
     — Ca-raaaa-ca, maluco! Pra quem tinha nome de Jackson ser chamado de Teco é pagar mico demais! Certamente, minha doce Paty ficaria decepcionada. Senti uma imensa saudade dela, naquela hora.... Ah! Paty, onde você está, agora!? Quase chorei...
     Porém, era preciso abandonar o passado, esquecer a emoção e a vaidade. Era hora de agradecer a Deus por ter encontrado tantos benfeitores, adaptar-me à nova realidade e à simplicidade daquelas pessoas. Disfarcei o choro e, para demonstrar minha gratidão, balancei feliz o que me restara do rabo.
     Aos poucos, fui recuperando o peso, as forças, a aparência e sendo cada vez mais bajulado por aquela imensa família que me acolheu com amor. Já faz seis anos que estou aqui nesta casa!
     Hoje, posso dizer que sou um legítimo “cão sem dono”, pois são tantos os donos, que eu me sinto filho de cada um deles. Todos me adotaram com o coração. Mas, como a Dani é quem fica em casa comigo, enquanto os adultos trabalham, dizem que sou o cãozinho dela e eu fico todo bobo! Claro, ela é uma tremenda gatinha!
     Descobri que nome e aparência não são as coisas mais importantes na vida. Pensando bem, a minha segunda vida é bem mais interessante: como Jackson, vivia preso com aquela coleira apertando o meu pescoço e não podia sair sozinho. Como Teco, posso ficar na rua, sentir a delícia de tocar o chão, brincar com os meus amigos, namorar sem preconceito racial e, quando entro em casa, sou coberto pelos beijos e abraços de minha grande e querida família!
     Perdi meu pedigree não tenho roupa, nem tênis, nem perfumes, nem casinha com brinquedos. Ah! Mas sou dono de uma riqueza que o pobre Jackson jamais poderia conhecer em todo o seu reinado: a LIBERDADE! Agora, sou simplesmente Teco, um cão amado, livre e feliz pra cachorro!

Imagem disponível em:

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Lídia Bantim
Enviado por Lídia Bantim em 04/12/2021
Alterado em 16/12/2021
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