Não, eu não estava prepara da para te perder!
Mesmo sabendo da tua fragilidade
Mesmo vendo de perto a tua luta cotidiana para se agarrar à vida,
Eu não estava preparada...
Por que, meu amor, te vieram buscar justo hoje, após o dia dos pais, em que parecias tão leve e feliz?
Por que não te deixaram realizar o teu último desejo: ir mais uma vez à Ubatuba, nosso pequeno paraíso na Terra?
Por que te iludiram, deixando-te separar as roupas, os óculos de sol, os itens de higiene, o filtro solar... se não te iam deixar viajar comigo?
Hoje, busco nos escombros de mim algum resquício de força para seguir sem ti essa estrada sinuosa que desconheço e me amedronta...
Sinto-me como uma folha seca sob uma árvore frondosa que, desapercebida, se deixa ficar ali no chão, onde todos passam, olhando para o alto a contemplar o viço das outras folhas...
Não, eu não estava preparada para nunca mais ouvir o milagre da tua voz tão firme mas tão leve, tão grave mas doce a me dizer: “Boa noite, meu sonho!
Não, eu não estava preparada para, de repente, ficar assim neste imenso vazio...
Nosso apartamento a que tão orgulhoso te referias como o “nosso lar”, onde segundo dizias “mais de dois é multidão”, que era pequeno para nossa cumplicidade e nossos sonhos tornou-se grande demais para tanto vazio e tanta tristeza...
Hoje, em cada cômodo, em cada móvel, em cada detalhe pensados juntos, restou apenas o abismo do silêncio e a voz da solidão...
Nosso lar tornou-se casa fria, sem sonho, sem vida...
Lídia Bantim
Imagem: google.com