Lídia Bantim
"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever." Clarice Lispector
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BREVE ANÁLISE ESTILÍSTICA DO POEMA ENCHENTE DE CECÍLIA MEIRELLES

ENCHENTE

Chama o Alexandre!
Chama!

Olha a chuva que chega!
É a enchente.
Olha o chão que foge com a chuva...

Olha a chuva que encharca a gente.
Põe a chave na fechadura.
Fecha a porta por causa da chuva,
olha a rua como se enche!

Enquanto chove, bota a chaleira
no fogo: olha a chama! olha a chispa!
Olha a chuva nos feixes de lenha!

Vamos tomar chá, pois a chuva
é tanta que nem de galocha
se pode andar na rua cheia!

Chama o Alexandre!
Chama!"
 
     
 
     
Nesse poema, predomina o emprego de verbos no imperativo, segunda pessoa do singular, enfatizando o desespero do emissor, para que se encontre alguém que corre perigo com a forte chuva.     
A preferência pelo ponto de exclamação, ao longo do texto,realça o medo, a preocupação e, portanto, o apelo insistente: Chama o Alexandre!Chama! Nos sintagmas oracionais,prevalece a hipotaxe (orações adjetivas e adverbiais), embora seja marcante o uso da parataxe. As frases são geralmente longas e há uma preferência por sintagmas nominais. Os versos são trabalhados na ordem direta, tornando o texto mais expressivo. O sintagma nominal O Alexandre, preocupação central do emissor, está sempre determinado pelo artigo definido, o que nos leva a pressupor que seja alguém conhecido, íntimo dele.
Na segunda estrofe, o verso Olha o chão que foge com a chuva...sugere que a chuva é tão intensa que carrega a terra (o chão) ou ainda, numa imagem poética, que o chão envolve-se amorosamente com a chuva, fugindo juntos — personificação — 
No segundo verso da terceira estrofe, a ordem: Põe a chave na fechadura. , reforça a dupla preocupação do emissor em proteger os que estão em casa, tentando impedir que a água entre, assim como  facilitar o acesso daquele que está em perigo, fora de casa, O Alexandre.
O verbo olhar seguido dos substantivos chama, chispa e chuva, na quarta estrofe, mostra o contraste entre a escuridão provocada pela tempestade e a claridade obtida com o fogo. Aqui, também, o emissor demonstra estar preocupado com o seu interlocutor, para que ele não se queime ao pôr a chaleira no fogo: Olha a chama, olha a chispa. Nesses versos, o verbo olhar, em posição anafórica, tem o valor expressivo da interjeição: Cuidado! 
Ainda na quarta estrofe, o sintagma adverbial Nos feixes de lenha caracteriza o espaço físico onde o emissor se encontra, uma casa modesta, numa cidadezinha do interior, ou ainda uma casa confortável, num lugar em que faz muito frio e que, porconseguinte,uma lareira  é indispensável .
Finalmente, na quinta estrofe, o emissor, convencido de que nada pode fazer, a não ser esperar a estiagem, tenta acalmar-se e acalmar o interocutor, convidando-o para juntos tomarem um chá, o único calmante de que dispõem: Vamos tomar um chá, pois a chuva
é tanta que nem de galocha
se pode andar na rua cheia!

Embora tente tranquilizar-se, o emissor não consegue e retoma o pedido inicial, utilizando-se da função apelativa, predominante no poema: Chama o Alexandre! Chama! Essa preocupação, em tom  de desespero, nos remete à angústia de uma mãe cujo filho está na rua, exposto ao perigo.
Nos sintagmas verbais: Chama o Alexandre! Chama! e Olha a chama, Cecília Meireles se utiliza da homonímia, Chama (verbo) e chama (substantivo), enriquecendo, assim, o valor expressivo do texto, como se o próprio fogo também estivesse chamando alguém.
O fonema fricativo palatal surdo /x/, por simbolismo sonoro sugere o barulho da chuva (chios) e o seu homorgânico sonoro /j/ sugere a abundância da água que enche as ruas, caracterizando a enchente anunciada no título do poema. Cecília Meirelles entremeia nos versos brancos algumas rimas quase imperceptíveis. Entretanto, o poema apresenta forte musicalidade, reforçada pela aliteração dos fonemas já mencionados e pelo cavalgamento (enjambement). As palavras finais de cada verso são sempre paroxítonas e predomina o uso de disílabas e trissílabas. Vale ressaltar que a musicalidade é uma característica marcante no estilo da autora.



Bibliografia:

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999.
MEIRELLES, Cecília. Ou isto ou aquilo. 5ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fonteira, 1990 – 
MONTEIRO, José Lemos. A Estilística. São Paulo: Ática, 1991.
MARTINS, Nilce Sant’Anna. Introdução à Estilística. 2ed. São Paulo: T.A. Queiroz, 1997.
VALENTE, André. A Linguagem nossa de cada dia. 3ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1998.

Imagem disponível em:
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Lídia Bantim
Enviado por Lídia Bantim em 23/06/2017
Alterado em 24/06/2017
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